Casa cheia no lançamento de “O Arneiro, 100 anos depois da I Guerra”

Casa cheia no lançamento de “O Arneiro, 100 anos depois da I Guerra”

O auditório da Casa-Memória de Camões tornou-se pequeno para acolher todos os que quiseram marcar presença no lançamento do livro “O Arneiro, 100 Anos depois da I Guerra”, de Paulo Jorge de Sousa, publicado pela Médio Tejo Edições/Origami Livros. Houve quem ficasse de pé mas ninguém desmobilizou durante a sessão de lançamento desta obra*, um ensaio fotográfico que venceu o Prémio Literário do Médio Tejo 2017, na categoria de Não-Ficção.

A apresentação ficou a cargo do historiador António Matias Coelho, autor do prefácio deste livro, e que começou por fazer um breve enquadramento histórico do que era o “arneiro”, onde se fez a célebre Parada de Montalvo, na qual desfilaram cerca de 20 000 militares portugueses acabados de preparar a escassos quilómetros dali, numa acção que ficaria conhecida como “O Milagre de Tancos”, para seguirem para a frente de batalha no norte da França.

“A Parada de Montalvo foi, literalmente, uma ação para inglês ver. Infelizmente, sobretudo para os 20 000 jovens que desfilaram nesse dia quente do verão ribatejano e depois foram enviados para o gelo das trincheiras, o chamado Milagre de Tancos viria a revelar todas as fragilidades de uma preparação apressada e inadequada.

Hoje o Arneiro da Parada é, aparentemente, apenas um terreno chão, de Montalvo para o lado do Tejo. Terreno pobre e inculto, onde entretanto cresceram uns quantos eucaliptos. Ali pouca gente vai. Não há, que se veja, grande coisa que se possa apreciar. 

Este trabalho é o resultado da leitura que um grande fotógrafo faz de um importante campo de memórias. Com a particularidade de o ver, e no-lo mostrar, muito para lá do que os nossos olhos seriam capazes de descobrir numa ocasional visita ao Arneiro da Parada. Cada fotografia de Paulo Sousa é, muito mais do que uma imagem, um desafio à reflexão.”

Margarida Teodora, diretora da Biblioteca Municipal Gustavo Pinto Lopes, em Torres Novas, e membro do júri do Prémio Literário do Médio Tejo, marcou também presença na sessão de apresentação deste livro especial.

“Quem conhece o trabalho do Paulo Jorge de Sousa sabe bem da qualidade que o afirma como um grande fotógrafo. Na estética do Paulo reconhecemos-lhe as linhas, as marcas, as narrativas que ditam esta evidência. A sua abordagem fotográfica, que transcende claramente o domínio artístico manifesta-se, sobretudo, nos enquadramentos conceptuais que resultam de cada reflexão, de cada interpretação no confronto com cada cena que se lhe oferece como recurso, como matéria. Este ensaio, o prémio que lhe mereceu e o livro que a Médio Tejo Edições apresenta, são o espelho dessa realidade, do mérito do Paulo enquanto intérprete do território e da História, no caso a partir do incómodo pessoal causado pelo conhecimento do episódio da célebre Parada de Montalvo, em 1916.”

O autor, apesar de preferir fotografar do que falar, agradeceu a presença de todos e desvendou um pouco do processo criativo deste projeto, um “desafio” que impôs a si próprio depois de ouvir uma palestra de Matias Coelho sobre a I Guerra, em que esse imenso terreno, o Arneiro, foi mencionado. Tantos anos depois, ali nada foi construído, o que permitiu ao fotógrafo pisar o mesmo chão, tentando compreender as emoções daqueles soldados, quase todos analfabetos, recrutados à força para combaterem na linha da frente o poderio alemão. Milhares destes soldados viriam a morrer numa única manhã, em 1918, na Batalha de La Lys, a acção mais mortífera para as tropas portuguesas depois de Alcácer Quibir.

*A 1ª edição deste livro é uma edição especial evocativa dos 100 anos sobre o final da I Guerra Mundial, limitada a 100 exemplares numerados e assinados pelo autor.

O Prémio Literário do Médio Tejo é uma iniciativa da Médio Tejo Edições que visa distinguir talentos da região e projetá-los a nível nacional, contando para isso com o apoio do TorreShopping e da Comunidade Intermunicipal do Médio Tejo. São premiadas três categorias: Romance, Poesia e Não-Ficção. O vencedor de cada categoria recebe 500 euros e tem a sua obra publicada pela Médio Tejo Edições. Os autores dos trabalhos a concurso permanecem anónimos, com a sua identidade em envelope fechado, até à decisão final do júri.
 
Na edição de 2017 foram premiadas as obras “na massa do sangue”, de Evelina Gaspar, na categoria de Romance; “25 Poemas de Dores e Amores”, de António Lúcio Vieira, na categoria Poesia; e “O Arneiro”, ensaio fotográfico de Paulo Jorge de Sousa, na categoria de Não-Ficção. As menções honrosas distinguiram “O Outro Livro do Génesis” de Nuno Garcia Lopes; “Perspectiva Sobre o Corpo das Águas” de José António Correia Pais (póstumo); “A Tribo” de Jorge Fazenda e “A Biblioteca Ambulante” de José Silva Tavares.
 
Na edição de 2018 os prémios foram entregues a “O Homem que Tirava Retratos”, de Martinho Branco, na categoria de Poesia; e a “A árvore cantante”, trabalho de ilustração de Paulo Alves, na categoria de Não-Ficção. O júri decidiu não atribuir o Prémio Romance. As menções honrosas distinguiram “Os Homens Minúsculos”, de Nuno Garcia Lopes e “Os carvoeiros do Pego”, de Joaquim Gomes dos Santos.
 
O júri manteve a composição em 2017 e 2018, sendo formado por PATRÍCIA REIS, escritora premiada com 12 romances publicados na D. Quixote, CEO do Atelier 004 e editora da revista Egoísta; ANTÓNIO MATIAS COELHO, historiador, consultor cultural e presidente da Associação Casa-Memória de Camões, em Constância; MARGARIDA TEODORA, diretora da Biblioteca Municipal Gustavo Pinto Lopes, de Torres Novas; e PATRÍCIA FONSECA, diretora editorial da Médio Tejo Edições e jornalista da revista Visão.
Fechar
×

Cart