Um inédito de António Lúcio Vieira a celebrar o Dia da Poesia
António Lúcio Vieira. Foto: mediotejo.net

Um inédito de António Lúcio Vieira a celebrar o Dia da Poesia

No corpo do e-mail vinha apenas esta mensagem:

“Hoje é o Dia da Poesia.”

Em anexo, um documento Word com o título “Tempo a Tempo”. Um poema inédito de António Lúcio Vieira, oferecido a um restrito grupo de amigos, a iluminar-nos o dia.

Generosamente, o poeta acedeu à sua partilha com os nossos leitores. Há dias que só passam a ser especiais porque existem pessoas assim nas nossas vidas. Celebremos pois o Dia da Poesia. Mesmo que uns dias depois, mesmo que o mundo pareça demasiado caótico para poder acalmar com estas palavras. Deveríamos todos partilhar mais vezes mensagens desta sensibilidade com quem nos quer bem. Em nome da sanidade, do inconformismo e da amizade.

 

TEMPO A TEMPO
por António Lúcio Vieira

Ainda procuro o silvo do vento
nos córregos da montanha
as plantas do bosque e os regatos
o pio das aves que despertam a manhã.
Ainda procuro o tanger da chuva
o canto das ondas que se entregam
a todas as praias do mar

procuro do ermo das colinas
onde a voz da montanha se liberta
as nuvens que se abrem quando a voz
irrompe no azul do firmamento

perco-me nos caminhos dos outeiros
onde as plantas e os regatos
recebem o pio das aves da manhã
e aí é o meu chão. O meu país.
A cama onde nasci e onde me deito
a minha arca de sonhos e mortalha.

Subo à montanha e às utopias
procuro, no ermo das colinas
os jardins e as pedras do lar
o bater sincopado do coração
e o grito igual ao pio das aves.

Existe em mim uma terra por fazer
um nome e um país atormentado
uma árvore em busca de raízes
uma voz ainda à espera do grito.

Ainda procuro o supremo milagre
de saber do amor ao vento
e do vento levar ao infinito a voz
e o meu nome ao sangue de toda a gente

Estou aqui para lançar no espaço
e nos olhos de toda a gente
o aroma dos bosques e dos rios
a caruma do pinheiro quase eterno
e é agora que os lanço ao vento
e é agora que acendo as árvores do bosque.

E é agora que lanço ao vento
o coração da terra, eterna pátria
onde se descerra a luz e a melodia
e se plantam as flores e os cantos
de todos os jardins da terra.

É aqui que parto e me navego
e há depois um mar de utopias
de caminhos de idas e regressos.
Os passos que dou falam de cores
dos ventos, das aves e montanhas
e ainda procuro o silvo dessas vidas.

Os passos que hão-de vir
os barcos, os caminhos e as flores
e quero para mim a voz de todas as florestas
a música de todas as esperas
o choro de todas as partidas

procuro a casa onde se guardam as promessas
exijo que os rios naveguem
os sonhos de quantos ainda sonham
exijo que os caminhos se abram
cobertos de seiva e flores
e se tornem cais de chegadas e partidas.

Ainda procuro a casa de acolher saudades
os ecos da liberdade que soltei na voz
o voo das aves, o cheiro dos prados
e o silvo do vento nos córregos da montanha
no ermo das colinas onde
a voz da montanha se liberta
e onde sei o que pretendo ser.

Um pouco de mim, o muito de todos
a música de todas as esperas
cidadão de todos os países
o fruto maduro da árvore da vida
a mão que semeia coração
numa terra onde os cardos
atapetam os caminhos.
Viajante sem viagem
acendo as candeias do futuro
e lanço-as no espaço como um pássaro
desbravador de madrugadas
espelho dos voos do coração e
companheiro dos ventos da montanha.

Estou aqui e persigo e persigo
a suave viagem dos rios
o voar das aves da madrugada
o morno vento da montanha
e a luz dos fins de tarde.

Há uma pátria em cada alento
há uma esperança em cada voz
e um coração rebelde
em cada hora de cada dia. De cada vida.

Os países não se escrevem sem destino,
os corações não se amainam sem afagos
nem o amor se conforta
sem os salmos dos poetas
sem o vento dos prados e

sem o perfume dos anseios
dos sonhadores que nascem
dos frutos do tempo
de todos os amores
da terra onde os sonhos dos homens
escreveram liberdade.

(Poema escrito a 21 de março de 2019, Dia da Poesia)

 

*Poeta, dramaturgo, encenador, argumentista, investigador, letrista, contista, jornalista. Uma vida inteira dedicada à arte da escrita, na forma de poemas, contos, artigos de jornal, diálogos para teatro e cinema ou letras de canções. Natural de Alcanena, reside em Torres Novas e venceu em 2017 o Prémio Literário do Médio Tejo, na categoria de Poesia, com o conjunto de poemas inéditos revelados no livro “25 Poemas de Dores e Amores” (Médio Tejo Edições/Origami Livros).

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